Na véspera, a turma do grupo já sabia o roteiro de cor: vencer por dois gols e seguir direto para a semifinal, vencer por um e resolver nos pênaltis, empatar ou perder e encerrar ali mesmo, na porta de casa, a aventura internacional da temporada. A escalação saiu por volta das nove da noite e o grupo respondeu com o entusiasmo automático de sempre, aquele “vamoooo” que todo torcedor manda antes de saber no que vai dar. Durou pouco. Bastaram os primeiros minutos de bola rolando para o clima virar: “o time tá assustado demais”, escreveu alguém, e o resto da noite provou que a intuição estava certa.
O primeiro tempo foi simplesmente vergonhoso. Um time que precisava reverter o resultado da Argentina jogou encolhido, sem nunca incomodar o gol do Boca, e a zaga cheia de nome no papel entregou o placar de bandeja: Leandro Lozano pegou Domingos Duarte dormindo na saída de bola, ficou cara a cara com o goleiro e abriu o placar sem que ninguém tricolor sequer tentasse impedir. Foi o estopim para uma revolta que não parou mais: time chamado de “bando”, cobrança pesada pela cabeça do treinador e o clássico “manda todo mundo embora” repetido à exaustão, porque o São Paulo joga assim com uma frequência que já deveria envergonhar qualquer um lá dentro.
O intervalo trouxe as trocas de sempre, Victor Sá, Ferreirinha e Ryan Francisco entrando na esperança de acordar um ataque anestesiado, e a torcida chegou a comemorar um gol do próprio Ryan que o bandeirinha, corretamente, cancelou por impedimento. A alegria real só veio depois, com o próprio Domingos Duarte se redimindo do erro que custou o primeiro gol e empatando a partida. “Dá pra virar”, chegou a se ouvir por aí, mas o time voltou a se acomodar na mesma hora, o Boca passou a administrar a vantagem do confronto com a tranquilidade de quem sabia que o empate já bastava, e a arbitragem virou alvo constante: faltas duras sem cartão, bola cronometrada do lado argentino e reclamação geral até o apito final.
Apitou o fim e a ficha caiu de vez: nem o gol anulado, nem o empate de Domingos Duarte foram suficientes, o agregado ficou com o Boca e a Sul-Americana morreu para o Tricolor logo nas quartas de final, dentro do próprio Morumbi. E o rescaldo veio ainda mais triste do que o placar: Luciano, que jogou a partida inteira, foi ao microfone lamentar e pedir desculpas aos mais de 55 mil torcedores que lotaram o MorumBIS, fazendo questão de dizer que aquilo não tinha nada a ver com os salários atrasados que rondam o elenco. Segundo o próprio atacante, em seis anos de São Paulo, ele nunca recebeu salário em dia uma única vez, e mesmo assim sempre segurou a onda calado. A fala escancarou, de goleada, o outro lado da bagunça que a torcida já vinha sentindo dentro de campo: um clube que enche o estádio, cobra profissionalismo do elenco, e nem assim consegue cumprir o básico com quem veste a camisa. Sobrou fúria pra todo lado, treinador, dirigentes e time, numa noite em que ficou dolorosamente claro que o São Paulo perde muito antes da bola rolar.
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