O sábado já chegou com cara de pós-eliminação. Com a queda na Sul-Americana ainda fresca, a turma dos grupos passou o dia entre a ironia e o desânimo: reclamaram do horário das 21h, que deixou a ansiedade rodando por horas, e comentaram a novidade do dia, o protesto das organizadas, que prometiam ficar em silêncio nos primeiros quinze minutos. A piada correu solta. No último jogo, o Morumbi lotado cantou tão alto que o time ficou nervoso, então agora o silêncio seria um favor aos jogadores, para que ninguém tremesse em campo. Teve quem cobrasse mais atitude da arquibancada, teve quem preferisse rir para não chorar, e entre uma coisa e outra os salários atrasados, que viraram pano de fundo de qualquer conversa tricolor, voltaram à mesa. À tarde, o grupo ainda assistiu ao time feminino e a comparação foi inevitável: mais organizado, mais entrosado e, dizem, com menos sustos para o coração do torcedor.
Com a bola rolando, o protesto virou espetáculo à parte. “Torcedor comum cantando e a organizada quieta”, resumiu um, tentando entender o que estava vendo, e não deu tempo de entender muito. Aos 14 minutos, Marcos Antônio lançou na área, Luciano se antecipou a Maripán e foi derrubado. O grupo inteiro concordou, coisa rara quando o assunto é arbitragem: “pênalti claro”, “sem discussão”, “não tem o que reclamar”. Calleri bateu firme no canto, superou Anthoni e voltou a marcar no Brasileirão depois de dois meses, sob um “vamoooo” coletivo. O detalhe que rendeu mais risada veio logo depois: o protesto acabou, a torcida voltou a cantar e o time jogou melhor por alguns minutos, o que levou a conclusão de que fazer barulho assusta o adversário e, quem sabe, acorda o próprio time. Foi só um respiro. O resto do primeiro tempo teve chutão, jogador se livrando da bola, o próprio Calleri devolvendo passe para trás no meio-campo e aquela sensação de “esse filme a gente já viu”. Domingos Duarte sentiu e deu lugar a Sabino, Mercado cabeceou com perigo em falta cobrada por Alan Patrick e Rafael precisou aparecer.
O intervalo não trouxe alívio e o segundo tempo entregou o roteiro que todo mundo temia: Internacional com a bola, São Paulo cada vez mais recuado e a torcida assistindo com os dedos cruzados. Logo aos cinco minutos, a bola sobrou limpa para Alan Patrick, que tentou colocar e mandou para fora, arrancando o “ainda bem que ele errou” mais sincero da noite. Luciano também tinha perdido a chance de ampliar, chutando por cima, e o gol de tranquilidade nunca veio. A conversa passou a girar em torno de Dorival Júnior. Cada substituição virou tema: Danielzinho, Lucas Ramon, André Silva e Ferreirinha entraram, Calleri saiu, e o grupo reclamou do time que “não corre”, da leitura do jogo e da molecada da base que continua esperando a vez. Ao fundo, a noite ganhava um ar de comparação inevitável: enquanto o Vasco goleava o Coritiba em São Januário, alguém lembrou que a eliminação para o Boca talvez tivesse sido menos vexatória do que cruzar com um adversário assim.
Os quatro minutos de acréscimo pareceram quarenta. O grupo passou dos comentários aos apelos, e o “acaba, pelo amor de Deus” apareceu em coro, de todos os lados, enquanto o Inter abusava dos cruzamentos e a defesa, com Arboleda e Sabino firmes, segurava a onda. Apitou o fim, veio o “ufa” e um elogio raro à arbitragem, que dessa vez, segundo a turma, foi boa. O placar de 1 a 0 levou o Tricolor a 36 pontos, na 11ª posição, cinco de folga para o Z4, enquanto o Inter segue com 28, na zona de rebaixamento. A calculadora já estava na mão de quem passou a noite sofrendo, contando quantas vitórias ainda faltam para respirar de vez.
O rescaldo foi de alívio contido, sem festa. Calleri levou amarelo e desfalca a visita ao Cruzeiro, o que deixou no ar a pergunta que a torcida já faz há tempo: quem carrega o ataque quando o maior nome da frente não está? O 1 a 0 resume bem o São Paulo do momento: um pênalti cedo, um jogo de sofrimento até o último segundo e três pontos que, no fim das contas, valem mais do que qualquer beleza. A turma foi dormir mais tranquila do que acordou, e isso, depois da semana que teve, já é lucro.
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